os rataplãs dos tambores gratificam!

Junho 2, 2008

a excêntrica história do livro não-escrito

Arquivado em: livros e revistas — by caroline @ 7:41 pm

esse não é um livro de silêncios, nem de ausências, faltas ou vazios. também não é um livro de fracassos, e muito menos um livro não-escrito ao estilo fernando pessoa, “que poderia ter sido e que não foi”.

o autor desse livro é, sem dúvida, alguém extremamente sensível, que compreende o movimento de cada página em branco, e que por isso prefere apenas imaginar suas inúmeras possibilidades.

esse é certamente um livro sem começo nem fim. sua história não-escrita deixa de contar aos leitores um clássico-inédito, de modo que seria quase inacreditável não fosse o autor sujeito tão confiável.

a leveza proposta por calvino é absorvida em cada página, sendo possível compreender porque esse não é um livro aceito em qualquer livraria - nem é para ser lido por qualquer leitor.

esse é um livro provável, o que não quer dizer que seja misterioso. é brilhante, mas ao mesmo tempo insustentável: é um livro excêntrico com uma história não-escrita.        

Junho 1, 2008

matéria de poesia

Arquivado em: livros e revistas — by caroline @ 2:26 pm

1.

todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia

o homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

terreno de 10×20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

um chevrolé gosmento
coleção de besouros abstêmios
o bule de braque sem boca
são bons para poesia

as coisas que não levam a nada
têm grande importância

cada coisa ordinária é um elemento de estima

cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

o que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

as coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

as coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos -
tem muita importância para os pulmões
da poesia

tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

os loucos de água e estandarte
servem demais
o traste é ótimo
o pobre-diabo é colosso

tudo que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta

pessoas desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada

tudo que explique
a lagartixa de esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

o que é bom para o lixo é bom para poesia

importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

as coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora

aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória

as coisas sem importância são bens de poesia

pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho.

(manoel de barros, matéria de poesia)

Maio 26, 2008

matadouro 5

Arquivado em: livros e revistas — by caroline @ 2:27 pm

dia desses fui presenteada pelo amigo burgos com um livro de seu autor predileto, kurt vonnegut (nêgovéio bem sabe), intitulado “matadouro 5″.

vonnegut é americano de origem alemã, o que muito explica o tom árido de sua narrativa, repleta de ironias e sarcasmos igualmente desérticos.

posso garantir que é daquelas leituras em que você mal termina de fechar o livro e já se sente, de algum modo estranho, outra pessoa.

mas vonnegut não é para as grandes multidões. “coisas da vida”.

Maio 21, 2008

maitena

Arquivado em: livros e revistas — by caroline @ 2:39 am

Maio 18, 2008

memórias do subsolo

Arquivado em: livros e revistas — by caroline @ 4:15 am

depois de 7 anos de intensas produções artísticas (em geral), uma amiga querida decidiu juntar tudo num blog, 1000 e 1 notas: érica zíngano. já falei dela, mas posso repetir: é o último grito da academia! todos estão convidados a conhecer seu lugar tão especial!  

Maio 16, 2008

tecendo a manhã

Arquivado em: livros e revistas — by caroline @ 8:28 pm

1

um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
de um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.

2

e se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
a manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

joão cabral de melo neto

Maio 13, 2008

poeminha do contra

Arquivado em: livros e revistas — by caroline @ 8:12 pm

todos esses que aí estão
atravancando meu caminho,
eles passarão…
eu passarinho!
(mário quintana)

Maio 12, 2008

dessa náusea como colher a flor?

Arquivado em: livros e revistas — by caroline @ 1:40 pm

difícil ser funcionário

joão cabral de melo neto

difícil ser funcionário
nesta segunda-feira.
eu te telefono, carlos
pedindo conselho.

não é lá fora o dia
que me deixa assim,
cinemas, avenidas,
e outros não-fazeres.

é a dor das coisas,
o luto desta mesa;
é o regimento proibindo
assovios, versos, flores.

eu nunca suspeitara
tanta roupa preta;
tão pouco essas palavras —
funcionárias, sem amor.

carlos, há uma máquina
que nunca escreve cartas;
há uma garrafa de tinta
que nunca bebeu álcool.

e os arquivos, carlos,
as caixas de papéis:
túmulos para todos
os tamanhos de meu corpo.

não me sinto correto
de gravata de cor,
e na cabeça uma moça
em forma de lembrança

não encontro a palavra
que diga a esses móveis.
se os pudesse encarar…
fazer seu nojo meu…

carlos, dessa náusea
como colher a flor?
eu te telefono, carlos,
pedindo conselho.

Maio 11, 2008

maitena

Arquivado em: livros e revistas — by caroline @ 12:01 am

Maio 2, 2008

“o piauí é uma ilusão” – ou torquato neto

Arquivado em: livros e revistas — by caroline @ 12:02 am

cogito

eu sou como eu sou
pronome
pessoal intransferível
do homem que iniciei
na medida do impossível

eu sou como eu sou
agora
sem grandes segredos dantes
sem novos secretos dentes
nesta hora

eu sou como eu sou
presente
desferrolhado indecente
feito um pedaço de mim

eu sou como eu sou
vidente
e vivo tranquilamente
todas as horas do fim

* * *

* torquato neto: nasceu no piauí e foi um dos maiores pensadores do movimento tropicalista, escrevendo “tropicália para principiantes”. um pouco jornalista (e quem não é?), poeta e “agitador cultural”, defendia a tropicália, o cinema marginal e a poesia concreta, buscando manifestações genuinamente brasileiras. acompanhava-se da “inteletualidade contemporânea”, como haroldo de campos, hélio oiticica, glauber rocha, caetano, gil, etc. etc. obviamente foi exilado, mas depois que voltou, matou-se um dia antes de completar 28 anos.  

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