os rataplãs dos tambores gratificam!

Junho 1, 2008

matéria de poesia

Arquivado em: livros e revistas — by caroline @ 2:26 pm

1.

todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia

o homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

terreno de 10×20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

um chevrolé gosmento
coleção de besouros abstêmios
o bule de braque sem boca
são bons para poesia

as coisas que não levam a nada
têm grande importância

cada coisa ordinária é um elemento de estima

cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

o que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

as coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

as coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos -
tem muita importância para os pulmões
da poesia

tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

os loucos de água e estandarte
servem demais
o traste é ótimo
o pobre-diabo é colosso

tudo que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta

pessoas desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada

tudo que explique
a lagartixa de esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

o que é bom para o lixo é bom para poesia

importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

as coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora

aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória

as coisas sem importância são bens de poesia

pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho.

(manoel de barros, matéria de poesia)

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