os rataplãs dos tambores gratificam!

Junho 3, 2008

fecha um ciclo, começa outro…

Arquivado em: papo serio — by caroline @ 2:11 pm

aos que acompanharam – e aos que não – a vida dessa página, informo a todos que ela chegou ao fim, nessa data querida, para que outros projetos possam se realizar.

Junho 2, 2008

a excêntrica história do livro não-escrito

Arquivado em: livros e revistas — by caroline @ 7:41 pm

esse não é um livro de silêncios, nem de ausências, faltas ou vazios. também não é um livro de fracassos, e muito menos um livro não-escrito ao estilo fernando pessoa, “que poderia ter sido e que não foi”.

o autor desse livro é, sem dúvida, alguém extremamente sensível, que compreende o movimento de cada página em branco, e que por isso prefere apenas imaginar suas inúmeras possibilidades.

esse é certamente um livro sem começo nem fim. sua história não-escrita deixa de contar aos leitores um clássico-inédito, de modo que seria quase inacreditável não fosse o autor sujeito tão confiável.

a leveza proposta por calvino é absorvida em cada página, sendo possível compreender porque esse não é um livro aceito em qualquer livraria - nem é para ser lido por qualquer leitor.

esse é um livro provável, o que não quer dizer que seja misterioso. é brilhante, mas ao mesmo tempo insustentável: é um livro excêntrico com uma história não-escrita.        

uma conquista para cada afeto

Arquivado em: generalidades — by caroline @ 2:23 pm

engraçado como existe uma tendência natural da vida de nos predispor desde pequenos ao que é fácil e cômodo.

a gente apre(e)nde nos livros de história que conquista é somente em casos de guerra, invasão, conflito, submissão e posse.

mas não é nada disso.

por exemplo, amores de família(s), namorado(s) e amigo(s), que a gente sempre acha que estão garantidos, até esses requerem um pouco da nossa dedicação e do nosso cuidado periódicos.

é preciso conquista para reafirmar cada afeto. confiança também é puramente conquista.

tenho pena daqueles que nunca enviaram uma carta, que nunca deram um presente sem motivo, que nunca ligaram apenas pra falar da saudade ou que simplesmente nunca foram capazes de surpeender…

Junho 1, 2008

matéria de poesia

Arquivado em: livros e revistas — by caroline @ 2:26 pm

1.

todas as coisas cujos valores podem ser
disputados no cuspe à distância
servem para a poesia

o homem que possui um pente
e uma árvore
serve para poesia

terreno de 10×20, sujo de mato – os que
nele gorjeiam: detritos semoventes, latas
servem para poesia

um chevrolé gosmento
coleção de besouros abstêmios
o bule de braque sem boca
são bons para poesia

as coisas que não levam a nada
têm grande importância

cada coisa ordinária é um elemento de estima

cada coisa sem préstimo
tem seu lugar
na poesia ou na geral

o que se encontra em ninho de joão-ferreira:
caco de vidro, garampos,
retratos de formatura,
servem demais para poesia

as coisas que não pretendem, como
por exemplo: pedras que cheiram
água, homens
que atravessam períodos de árvore,
se prestam para poesia

tudo aquilo que nos leva a coisa nenhuma
e que você não pode vender no mercado
como, por exemplo, o coração verde
dos pássaros,
serve para poesia

as coisas que os líquenes comem
- sapatos, adjetivos -
tem muita importância para os pulmões
da poesia

tudo aquilo que a nossa
civilização rejeita, pisa e mija em cima,
serve para poesia

os loucos de água e estandarte
servem demais
o traste é ótimo
o pobre-diabo é colosso

tudo que explique
o alicate cremoso
e o lodo das estrelas
serve demais da conta

pessoas desimportantes
dão para poesia
qualquer pessoa ou escada

tudo que explique
a lagartixa de esteira
e a laminação de sabiás
é muito importante para a poesia

o que é bom para o lixo é bom para poesia

importante sobremaneira é a palavra repositório;
a palavra repositório eu conheço bem:
tem muitas repercussões
como um algibe entupido de silêncio
sabe a destroços

as coisas jogadas fora
têm grande importância
- como um homem jogado fora

aliás é também objeto de poesia
saber qual o período médio
que um homem jogado fora
pode permanecer na terra sem nascerem
em sua boca as raízes da escória

as coisas sem importância são bens de poesia

pois é assim que um chevrolé gosmento chega
ao poema, e as andorinhas de junho.

(manoel de barros, matéria de poesia)

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