
as grandes questões sobre o tempo e o espaço não são – nem foram, nem serão – só minhas (isso foi uma das frases mais óbvias que já escrevi). pois bem, quase todo mundo, de algum modo, carrega no seu dna uma certa curiosidade sobre os temas - ainda que no desenrolar da vida acabe esquecendo, propositadamente ou não. pensar nisso é conviver com uma dúvida universal, atemporal, existencial e diria ainda que quase perversa, porque simplesmente as respostas não existem ou são “relativas”, o que termina dando no mesmo: o mistério.
bom, nesse fascínio pululante que não deixa ninguém em paz, sempre que posso procuro acompanhar essa busca dos físicos e dos neurocientistas, que, vira e mexe, batem cabeça por conta disso. andei lendo esse artigo na american scientific, e eis que algumas informações interessantes (ainda que muitas já conhecidas) foram reveladas a nós mortais, analfabetos e ignorantes da ciência. por exemplo, ”por que o tempo parece passar cada vez mais depressa à medida que envelhecemos” ou por que “experimentamos a sensação de o tempo ‘voar’, quando estamos em lugares ou situações agradáveis, ou de se ‘arrastar’, nos momentos em que esperamos com ansiedade algo acontecer”.
a revelação-mor é feita na metade do texto: “podemos dizer que, em essência, somos as nossas memórias. aquilo que declaramos e contamos compõe a chamada memória declarativa, da qual fazem parte fatos sobre o mundo e sobre nossas próprias experiências. estima-se que mais da metade das conversações adultas se refiram a eventos passados ou futuros (…) viajando no tempo, entre memórias e projetos, podemos reavaliar experiências passadas, com suas possíveis causas, e ponderar cenários futuros, com suas eventuais conseqüências (…) existe nítida assimetria entre a memória de um evento passado, cristalizado e único em sua realidade, e a expectativa de um evento futuro, aberto e múltiplo em suas potencialidades”.
no final, o autor cita heráclito, que ”via o universo como um processo contínuo de mudança: ‘todas as coisas estão em perpétuo estado de fluxo’ (…) no mesmo rio entramos e não entramos, somos e não somos’; platão, que acreditava que “o tempo seria uma ‘imagem móvel da eternidade’; e, enfim, refere-se a santo agostinho como “o primeiro pensador ocidental a destacar claramente o caráter subjetivo do tempo”, para quem “passado e futuro não existem. quando olhamos para o passado, ele já se foi: é uma memória. quando procuramos o futuro, ele ainda não chegou: é uma expectativa”.
tenho impressão (mas ela também é relativa e é apenas uma impressão) de que samuel beckett estava certo: se somos ”vladimir” ou se somos ”estragon” não importa, o fato é que vivemos ”esperando godot”, continuamos à espera de alguém que não sabemos quem seja, nem sabemos se virá, nem quando virá. apenas esperamos e anulamos nosso tempo presente – que pelo visto não passa mesmo de uma grande ilusão.
