nesses meus tantos anos de vida, nunca houve necessidade - de fato e de direito – de administrar as estações do ano fora de mim, pois em fortaleza era sempre verão (com exceção do tempo em que passei em sp-sp, mas isso não conta, pois lá só tem “inverno e inferno”, como dizem os cariocas quando se referem ao rio – só que eles não sabem como é o clima da garoa). pois bem, não é que aqui no rio, aos pouquinhos, tenho percebido a chegada do outono?
quando a natureza, no esplendor de sua sabedoria, recolhe-se em silêncio para justamente se refazer, pois sabe o longo inverno que terá pela frente. então, nessa época, já faz um friozinho aqui, outro ali, deixando a gente também mais vulnerável e simpático ao silêncio – “que não é mudez”, como falava ana cristina. nelson, a seu modo, comentava sobre o fundamental silêncio que deveria existir entre os amigos verdadeiros. e clarice lembrava do silêncio que havia no espaço entre uma palavra e outra, entre um número e outro – e lá vou eu de novo com minhas obsessões.
durante um tempo, achei que o silêncio só estaria no escuro – sabe-se lá porquê – então fechava os olhos para tentar senti-lo de alguma forma. assim, lembrava imediatamente dos silêncios mais internos: o silêncio do sono, da fome, da morte e do luto, o silêncio da dor, do sofrimento e da alegria também, das lembranças (boas ou ruins), o silêncio dos casais e do fim do amor, da distância e da proximidade, da cumplicidade, do afeto, da troca de olhares, o silêncio da solidão, do sorriso tranquilo, do desconhecido, do espanto, do pensamento e do sentimento, profundo ou não…
entretanto, de mansinho, comecei a enxergar o silêncio de olhos abertos mesmo, foi quando percebi que ele estava em tudo: na família, na velhice e no seu olhar lacrimoso, no bebê que ainda não fala, na infância toda, no aluno e no professor, na reunião, na multidão, na natureza, no nascer do sol e na cidade que amanhece, nas artes, na leitura, no meio-dia, na meia-noite e no fim da tarde de domingo, no alto-mar, no fundo do mar, no guarda-roupa, no armário da cozinha, no diário, no confidente e no segredo, no caminhar, no contemplar, no abraço e no beijo (na boca principalmente), no reencontro e na despedida…
é incrível, mas até a arte do silêncio a natureza nos ensina… ”antes de existir a voz existia o silêncio, o silêncio que ninguém ouviu”, disse arnaldo antunes numa música chamada - não por acaso - ”o silêncio”. só que chega de novo o verão, e com ele é preciso aprender a falar, a pedir, a declarar-se, a gritar, cantar, sussurrar, expressar, assobiar, gargalhar, torcer, berrar, escandalizar, surtar, conversar, e por aí vai. assim, passam-se os anos e vamos acompanhando, impressionados, os ciclos perfeitos de cada estação e, se deixarmos, saberemos aproveitar o que de melhor cada uma nos reserva…