
é possível “filosofar” conversando com um motorista de táxi – ultimamente acredito, inclusive, que só é possível “filosofar” nessas viagens de idas e vindas no trânsito parado (talvez até em alemão, quem sabe?). você volta pra casa com aquele acúmulo de pensamentos do dia, aparentemente soltos e desconexos, mas eis que numa conversinha despretensiosa com o taxista, você é capaz de fazer tantas associações, que seu analista daria saltos ornamentais – não sei se de alegria ou de frustração.
bom, no meio daqueles assuntos triviais (como trânsito, tempo e trabalho), surge o importantíssimo tema da “amizade”. esse é provavelmente um dos assuntos que mais levo a sério hoje em dia, um dos pouquíssimos que faço questão de me dedicar ”com força”, como costumava dizer caio fernando abreu. afinal, conquistar um amigo é fato tão raro e inacreditável (em qualquer tempo, mas convenhamos que atualmente esse ganho é ainda mais improvável), que merece ser reverenciado pelo menos de 5 em 5 minutos.
pois justamente o amigo é aquele alívio no meio do caos que é a vida, é aquele a quem a gente não precisa fingir nem disfarçar, a quem podemos falar o que estamos sentindo, enfim, em quem confiamos e compartilhamos nossa intimidade. e ele vai gostar da gente e vai continuar por perto, mesmo sabendo de todos os nossos defeitos - ou talvez por isso mesmo. e quando falo do “amigo”, falo daquele profundo, que ri, chora e sofre junto da gente, que não sente vergonha nem receio, aquele escolhido que virou família e que vai ficar nas nossas vidas para sempre.
segundo meu pai, 8 anos ou uma saca de sal (o que vier primeiro) são as medidas de referência para se encher o peito e chamar alguém de “amigo” – com uma margem de segurança de 100% (ou mais). e quando isso acontece, é um daqueles momentos em que a gente tem certeza de que a vida vale a pena. e podemos caminhar despreocupados pelas ruas (não importa onde), pois contamos com o conforto do “amigo”, por quem somos capazes até de “filosofar” dentro de um táxi, apesar do engarrafamento, da chuva e das atribulações nossas de cada dia. ainda assim, olhamos através da janela a chuva fina que molha delicadamente a cidade e sorrimos satisfeitos.