cantiga de roda às avessas
na minha idade, é natural que no meio de uma conversa ou outra com as amigas, sobre anti-rugas, drenagem linfática e acupuntura, surja a grande dúvida sobre ”ter ou não ter filhos” - eis a questão. como a maioria anda preferindo o “não”, alguém sempre recita o “poema enjoadinho” de vinícius: “filhos… melhor não tê-los, mas se não os temos, como sabê-los?” e eis que a incerteza cruel fica suspensa no ar, enquanto o relógio biológico não pára…
as justificativas mais votadas pelas mães em potencial são: violência, tristeza e complexidade (em todos os sentidos) dos dias atuais - com as quais concordo plenamente. pois muito bem, dia desses, numa dessas idas ao trabalho, escuto duas ou três menininhas no térreo do prédio brincando ingenuamente de “atirei o pau no gato”.
os cinco ou seis passos que dei enquanto me distanciava delas foram suficientes para um insigth avassalador e óbvio, daqueles que só se tem duas ou três vezes na vida. pensei: de quando datam as cantigas de roda? ninguém sabe, são de domínio popular. porém, se prestarmos mais atenção às suas letras, ficaremos perplexos diante de tanta tristeza, violência e complexidade…
em “atirei o pau no gato” a intenção da criança é a de matá-lo(!), “mas o gato-tô não morreu-reu-reu”; “peixe vivo” guarda uma saudade e uma tristeza tão grandes que até hoje me fazem chorar, “a minh’alma chorou tanto que de pranto está vazia”; “caranguejo” fala para a “crioula da bahia pegar essa menina e jogá-la na bacia”; e vai lém! tom zé, em um de seus shows revela que recebeu os primeiros ensinamentos sobre sexo com a cantiga “o cravo e a rosa”.
afinal, do que era que estávamos reclamando mesmo? a violência compõe a natureza humana, assim como a tristeza e a complexidade - e não estou aqui fazendo nenhuma apologia a nada disso, muito pelo contrário: sou 100% (ou mais) a favor da paz eterna. apenas questiono o seguinte: a escolha pela maternidade não pode depender da espera(nça) por uma sociedade ideal e livre das atrocidades humanas, porque elas existirão sempre, como sempre existiram.
ser mãe, além de uma disposição enorme ao amor incondicional (sem medo e sem pressa), deve depender apenas de encontrar um cara bacana e apaixonado que queira repovoar o planeta de pessoinhas felizes! e lá vem vinícius de novo: “que coisa louca, que coisa linda que os filhos são!” o dia das mães é hoje e sempre. feliz dia das mães!
querida!
tenho pensado muito nisso ultimamente, acho q toda mulher nessa idade… sim, não, sim, não…
no fim das contas, concordo 100% (ou mais) com vc: com amor e paixão a natureza dá o seu jeito de fazer a gente parar de racionalizar demais. viva!
Comentário de claire — Maio 12, 2008 @ 6:17 pm
hehehe! e você será uma mãe maravilhosa, faço minha aposta!
Comentário de caroline — Maio 12, 2008 @ 8:20 pm
Outro dia estava assistindo na TV Brasil um documentário sobre escravidão e a pesquisadora falava justamente das cantigas de ninar que as negras cantavam para os filhos das senhoras brancas. Não tinha nada de abnegação neste trabalho de “babá”. A mãe negra muitas vezes tinha raiva de criar um filho que não era seu, enquanto o seu era maltratado, e se valia das cantigas de ninar pra dizer isso. Por isso, talvez a música fale da crioula que joga a menina na bacia.
Quanto a ter ou não ter filhos, como diz um amigo meu que é psicanalista, “isso não é racional”. Toda vez que eu lhe apresento argumentos para não parir, ele me interrompe com esta frase, pra mim, misteriosa e enigmática.
Comentário de beliamattos — Maio 13, 2008 @ 12:13 am
se a gente pensar direito, deve ser irracional mesmo….
Comentário de caroline — Maio 13, 2008 @ 12:27 am