os rataplãs dos tambores gratificam!

Abril 30, 2008

como fazer amigos e influenciar pessoas?

Arquivado em: generalidades — by caroline @ 2:55 pm

 

quando a gente sai da cidade onde nasceu para morar em outro lugar, quase tudo muda. as paisagens, as pessoas e as leis são outras, e com isso somos obrigados a reestruturar também a dinâmica toda da vida – é fundamental chegar com essa disposição. tudo o que aprendemos nesses anos de cidade-natal será questionado no novo lugar de moradia, e provavelmente considerado inútil como experiência para viver naquele espaço.

os hábitos, as preferências e os gostos são praticamente inversos, e começo a acreditar que a única semelhança entre as cidades brasileiras é o fato de falarmos o português. o resto, é tudo reinventado, dependendo do ambiente, da memória e das experimentações de cada localidade. então, quando a gente chega ao desconhecido e o observa com certo distanciamento, são perceptíveis a olho nu as enormes diferenças que nos mantêm separados no mapa.

lembro de drummond com sua itabira. depois de anos morando fora, ainda carregava tanto dos costumes do interior mineiro, as lembranças daquele lugarzinho aparentemente perdido em longitude… as recordações sempre teimavam em acompanhá-lo: cheiros, cores, sabores doces da infância. e é assim mesmo que acontece. existe uma razão – às vezes não muito clara - para nascermos em determinado lugar, e há inúmeros motivos para sairmos de lá. mas certamente a experiência do nascimento nos guiará para todo o sempre, ainda que estejamos perdidos pelos caminhos mais longínquos.

diante de tantas diferenças, o grande mistério que se impõe como uma esfinge é justamente o de “como fazer amigos e influenciar pessoas”. no meio de toda essa confusão, como construir as relações? como encontrar o tom certo e reajustar o caos? é preciso encontrar similitudes para que isso se realize? não sei se existem respostas para essas questões, mas acredito sempre na afetividade – que independe da sua cidade de origem e que não se explica. sendo assim, provavelmente a intuição, o tempo e/ou as palavras-cruzadas (ou a mistura de tudo isso) nos mostre o único caminho possível. ou não.

                    * * *                       

Confidência do itabirano

Alguns anos vivi em Itabira
Principalmente nasci em Itabira.
Por isso sou triste, orgulhoso: de ferro.
Noventa por cento de ferro nas calçadas.
Oitenta por cento de ferro nas almas.
E esse alheamento do que na vida é porosidade e comunicação.

A vontade de amar, que me paralisa o trabalho,
vem de Itabira, de suas noites brancas, sem mulheres e sem horizontes.
E o hábito de sofrer, que tanto me diverte,
É doce herança itabirana.

De Itabira trouxe prendas diversas que ora te ofereço:
este São Benedito do velho santeiro Alfredo Duval;
este couro de anta, estendido no sofá da sala de visitas;
este orgulho, esta cabeça baixa…
Tive ouro, tive gado, tive fazendas.
Hoje sou funcionário público.
Itabira é apenas uma fotografia na parede.
Mas como dói!

CARLOS DRUMMOND DE ANDRADE

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