
os desenhos são de kafka, mas quero falar mesmo é da metamorfose de ionesco, mais precisamente em “o rinoceronte”. como todos sabem, o dramaturgo foi um dos maiores expoentes do teatro do absurdo, compartilhando com beckett (de “esperando godot”, que merece um capítulo à parte) alguns grandes temas, como o esvaziamento das palavras e a dissolução das relações humanas.
muito bem, a discussão é somente uma: se em 1957, quando a peça foi encenada pela primeira vez em dusseldorf (eu não acredito em vampiros, mas que eles existem, eles existem), a humanidade já era considerada assim de tal modo isolada e incomunicável, o que se pode dizer dos dias atuais? ainda há o que se discutir sobre a solidão do homem – moderno ou não? ou tudo já foi dito, e é por isso que nos calamos assim?
pois eu digo que uma questão muito me intriga: existe algo mais contemporâneo e assustador e solitário do que ”second life”? que tipo de anti-relação está sendo construída em laboratório e aplicada às novas gerações, meu deus? fico imaginando quantos delirantes (que trocam o insubstituível papo de mesa de bar com os amigos, por exemplo, para se tornarem ”presidentes” de países imaginários - provavelmente juntos com alice, que também se aventurou pelo “país das maravilhas”) não existem por aí, livres como andorinhas no céu?
confesso que quando penso nisso, sinto um arrepio de congelar a espinha dorsal, mas que logo se mistura a uma enorme compaixão… e voltamos ao redundante e famigerado “napoleão de hospício”, sobre o qual até um sambinha foi escrito nas esquinas do pinel: “napoleão com seus cem soldados, cem minutos sem memória, sem certo sem errado, ai, ai, ai, quedê…” bom, como já nem sei mais sobre o quê estava falando, agora só me resta cantar e dançar junto aos rinocerontes do absurdo…
