qualquer repartição pública é que nem big brother, você é obrigado a conviver durante grande parte do dia com pessoas que nunca tinha visto (mais gordo) na vida e que são completamente diferentes de você (e entre si). coincidência é que em ambos existe sempre algum “mágico de oz” observando tudo que se passa, mas há muitas outras similaridades: bate papo na copa, conversas paralelas nos jardins - e sempre, sempre, o sagrado cafezinho.
nesse contexto, a “metodologia de relacionamento” é tão saudável quanto a darwiniana (com direito a tudo: seleção natural, luta pela existência e sobrevivência do mais apto). porém, se sempre existe exceção, nesse caso não seria diferente. já percebi que no trabalho, muitas vezes, sobrevive quem é simplesmente mais safo. mas não era nada disso que queria falar. a diversidade do microcosmo que é uma repatição guarda em sua essência as pérolas mais raras e mais espantosas - que nem o fundo do mar mais fértil ousaria produzir.
mas poucos sabem disso, e menos ainda os que conseguem captar essa dinâmica tão intensa e tão rara. um sujeito com quem trabalho é uma dessas pessoas um pouco mais sensíveis. arriscaria afirmar que esse, sim, compreende a profundeza da alma humana, incluindo aí seus pântanos mais sórdidos. pois bem, o cara, além de ser a figura mais mal humorada do local, é também o mais engraçado, e quando percebe que tem platéia, sabe que é sagaz e capricha na desenvoltura, chegando às raias da genialidade.
ele já trabalha ali há muito tempo, e durante todo esse período usou sua perspicácia para construir um olimpo de excentricidades – nem carmen miranda conseguiria juntar tantas cores num lugar só. o sujeito foi o grande mentor intelectual dos apelidos mais antológicos da empresa, e o mais incrível é que você sabe exatamente a quem pertence cada alcunha – ou não (o “crime” é simplesmente perfeito).
aos que não conhecem qualquer pessoa desse nicho, pelo menos vale a pena se divertir tentando imaginar quem poderia ser sundown 100, mister m, grilo, canelinha, fininho, padre antônio vieira, gnomo, rabicó, wanderléia, zumbi, maçaranduba, cabeção, sandra de sá, coruja, romário, espeta, palmito, banana de pijama, jarrão, bem-te-vi, bonecão de olinda… e por aí vai.
mas, de repente, quando páro de gargalhar e penso com um pouco mais de atenção, percebo o quanto nada disso tem a menor graça e o quanto nada disso faz o menor sentido. darwin tinha razão quando falava da luta pela existência, e isso me comove tanto quanto os napoleões de hospício. em certos casos, essa batalha chega ao limite. e fico tentando descobrir que subterfúgios usamos – ainda que inconscientemente – para sobrevivermos a essa guerra. é mesmo o trabalho que dignifica o homem?