
o ritmo alucinante do rio de janeiro praticamente impõe ao transeunte a necessidade de andar sempre muito rápido – ainda que não seja o caso nem de pressa, nem de urgência-urgentíssima. quando você se dá conta, já foi contaminada pela rapidez da cidade, e ali está a sua pessoa, no meio da rua, semi-ofegante, tentando compreender porquê (ou melhor, pra quê), andou tão depressa de uma esquina a outra (vale dizer que os quarteirões daqui são quase intermináveis, equivalem a pelo menos dois dos normais).
tenho impressão de que a velocidade estonteante desses passos se deve principalmente ao clima de tensão que envolve a cidade, por conta da violência, do tamanho, do movimento, enfim, por inúmeros fatores que não é o caso contar agora. o importante é que, no meio desse contexto, as pessoas daqui juram, por todos os santos, que adoram caminhar - ou fingem que adoram (e essa é minha aposta, pois fui criada numa cultura em que a gente pega o carro pra fazer tudo e qualquer coisa: da padaria à casa da vó).
então, já no rio, a primeira vez que saí acompanhada de um nativo, fui obrigada a correr (literalmente) para conseguir acompanhá-lo, sem entender direito do que (ou mesmo de quem) estávamos fugindo. quando consegui recuperar o fôlego, ainda em choque, fiz a pergunta óbvia: pode me explicar pra onde diabos estamos indo com tanta pressa? depois da resposta, recusei-me a seguir em frente. e, por tomar a sábia decisão de chamar um táxi (essa palavra já me dá uma felicidade desvairada), fui motivo de chacota o resto do dia…
mas vamos ao que interessa: quando a calçada mantém sua dignidade (com relação à largura, principalmente), eu até concordo que é uma maravilha, um verdadeiro luxo sair caminhando pelo balneário (como diria jana), rebolando um ar meio blasé para lá e para cá. e mais: parar à toa na calçada para bater um papo, ficar de bobeira zanzando de um lado para o outro, deixar-se distrair pela cidade que é linda e que promove estímulos visuais incríveis. nesse caso (e só nesse caso), você pode e deve caminhar lentamente, como quem quase flutua…
só que existem também as calçadas estreitas, e é aí onde a confusão e o estresse ficam do tamanho da avenida brasil. e o que poderia ser prazeroso, torna-se um pesadelo inenarrável. se você não se dispuser a desviar daqueles que “jamais desviarão”, a desgraça será completa: você corre o risco de ir parar no meio da rua e ter que disputar com os carros um pequeno espaço para continuar seu caminho em paz.
ninguém está preocupado com o outro, menos ainda com a velhinha-quase-cega que sai da missa direto para a calçada minúscula, ou mesmo com a grávida que ocupa praticamente todo o espaço. e quando chove? meu deus, quando chove é preciso dar saltos ornamentais para, ao mesmo tempo, afastar-se das poças d’água, segurar firme o guarda-chuva e, além de tudo, desviar daqueles que “jamais desviarão”.
bom, por enquanto, como não tenho muita escolha, tento reaprender a caminhar – em calçadas estreitas ou largas, tanto faz. confesso que andar distraidamente pela cidade me tem feito notar certos detalhes que passariam despercebidos, caso estivesse de carro (tô falando o óbvio). e a conclusão que posso tirar disso é: como tudo (ou quase tudo) é uma questão de referencial, hoje já gosto de caminhar, porque aprendi que pelo ângulo do pedestre enxergo melhor aquilo que realmente importa na vida: o primeiro táááxi!