os rataplãs dos tambores gratificam!

Abril 10, 2008

estranho como a primeira coca-cola

Arquivado em: generalidades — by caroline @ 1:29 am

a gente
nasce
cresce
reproduz
envelhece
morre e…
.
.
.
se esquece *

uma das situações mais desagradáveis e angustiantes que existem é quando a gente tenta lembrar de alguma coisa e não consegue… daí, a “coisa” vira uma obsessão durante hooooras (ou dias, a depender da urgência), até que resolve, por ela mesma, vir à tona, como um susto, e a consequência disso é um alívio estarrecedor. nesses casos, lembrar é como a glória – em toda sua plenitude.

pois bem, nessas horas terríveis de tempestades mentais, sempre penso em raskólnikov, de “crime e castigo”, e em como dostoiévski era assustador – de fato e de direito. tudo bem que se perder no labirinto da própria memória não é tarefa difícil (todos estamos facilmente sujeitos), o complicado mesmo é não conseguir achar a saída e tornar-se refém do medo, dos delírios e da incerteza de suas lembranças…

outro que me vem à mente é “funes, o memorioso” (de borges) que, ao contrário, guardava uma memória implacável, riquíssima de detalhes, capaz de “reconstruir todos os sonhos e entresonhos”. funes dizia com uma segurança invejável que tinha mais lembranças do que as que “todos os homens tiveram desde que o mundo é mundo. (…) minha memória, senhor, é como depósito de lixo”.

a memória é mesmo um campo de batalhas subterrâneas, de eternos conflitos entre lembrar e esquecer. e, ao contrário do que imaginamos, não é um bloco congelado no passado – ela é dinâmica, mutável, seletiva. pois bem, aí surge a questão: se é justamente a memória que constrói a identidade de cada um de nós, e se hoje nossa capacidade de esquecer só aumenta, num futuro próximo viraremos todos raskólnikovs?

e para onde irão os “memoriosos” sobreviventes? interessante é que nos últimos tempos incontáveis “lugares de memória” têm surgido por todos os lados. hoje, qualquer assunto é motivo para se inaugurar um museu ou uma galeria de lembranças individuais. é estranho, mas a espontaneidade das lembranças – que antes ficavam a cargo de cada um -, agora dá espaço a ações determinadas por alguns agentes produtores de memórias coletivas.

e o que podemos fazer diante disso? “dançar um tango argentino”. e, enquanto não viramos raskólnikovs do terceiro mundo – “em desenvolvimento e com responsabilidade social” -, a gente vai levando, relembrando vez ou outra do cheirinho gostoso de um afeto, do sabor de infância (como fausto nilo com sua primeira coca-cola), de quando a gente era ingênuo e completamente feliz…

* poema fértil, alan adi.

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