casa de bonecas sempre me chamou muito a atenção pela força incalculável de suas cenas - principalmente se pensarmos que ibsen a escreveu em 1879, na noruega. é considerada uma obra de enorme significado para a libertação da mulher, e uma das maiores críticas à peça foi o fato de nora (a protagonista) ter abandonado o lar. interessante é que, em resposta, o autor escreveu os espectros, mostrando o que aconteceria se ela ficasse…
ato III
nora
não, é exatamente isso. você não me compreende, e eu nunca compreendi você, até esta noite. não, não me interrompa. ouve o que eu tenho para dizer. torvald, isso é um ajuste de contas.
helmer
que significa isso?
(…)
nora
ora, torvald, você não é o homem indicado para me ensinar a ser uma verdadeira mulher para você.
helmer
e você é a pessoa indicada para dizer isso?
nora
e eu, por acaso, eu estou preparada para educar as crianças?
helmer
nora!
nora
você mesmo não disse agora que não se atrevia a deixá-las entregues a mim?
helmer
numa hora de raiva! como você pode levar isso em conta?
nora
mas você estava mesmo com toda a razão. eu não estou preparada para a tarefa. existe outra tarefa de que eu tenho que me desembaraçar primeiro. eu preciso tentar educar a mim mesma. e você não é o homem que pode me ajudar nisso. eu tenho que fazer isso sozinha. e é por isso que agora eu vou deixá-lo, vou embora.
(…)
helmer
antes de tudo você é esposa e mãe.
nora
não acredito mais nisso. eu acredito que antes de tudo eu sou um ser humano, exatamente como você é ou, pelo menos, eu devo tentar me transformar nisso. eu sei muito bem, torvald, que a maioria das pessoas lhe daria razão, e que essa é a opinião que se encontra nos livros. mas eu não posso mais me contentar com a opinião da maioria das pessoas nem com o que está nos livros. eu tenho que pensar por mim mesma, se quiser compreender as coisas.
helmer
você não compreende seu lugar na sua própria casa? você não tem uma orientação segura nesses assuntos? … não tem religião?
nora
olha, torvald, eu acho que não sei muito bem o que seja religião.
helmer
o que é que você está dizendo?
nora
da religião eu só sei o que o pastor hansen me disse quando eu fui confirmada. ele disse que a religião era isso, aquilo e aquilo outro. quando eu estiver longe disso tudo e sozinha, eu vou pensar nesse assunto também. eu vou ver se é verdade o que o pastor hansen disse ou, em todo caso, se é verdade para mim.
helmer
isso é inédito numa mulher da sua idade! mas se a religião não pode mostrar-lhe o bom caminho, deixe-me tentar acordar sua consciência. pois eu presumo que você tenha algum senso moral ou… responde-me… devo achar que você não tem nenhum?
nora
garanto-lhe, torvald, que essa não é uma pergunta fácil de responder, eu realmente não sei. estou perplexa diante de tudo. só sei que você e eu encaramos o problema de maneiras diferentes. eu aprendi também que as leis são muito diferentes do que eu pensava, mas não consigo convencer-me de que as leis sejam justas.
helmer
você fala como uma criança. você não compreende a sociedade em que você vive.
nora
não. mas agora eu vou tentar, vou ver se consigo entender quem está com a razão, a sociedade ou eu.
(…)
helmer
você não me ama mais.
nora
não. é isso mesmo.
helmer
nora, você tem a coragem de dizer isso.
nora
isso me machuca muito, torvald, pois você sempre me tratou bem, mas não posso evitar. eu não o amo mais mesmo.
helmer (recompondo-se)
isso também é um raciocínio lúcido e claro?
nora
absolutamente lúcido e claro. é por isso que eu não vou mais ficar aqui.
helmer
e você pode me dizer o que é que eu fiz pra perder seu amor?
nora
posso sim. foi hoje à noite, quando o milagre não aconteceu, aí eu vi que você não é o homem que eu pensava que fosse.
(…)
helmer
você pensa e fala como uma criança sem juízo.
nora
pode ser. mas você também não pensa nem fala como homem a quem eu poderia me unir. assim que o seu medo passou e não era medo do que pudesse acontecer comigo e sim com você mesmo, quando tudo passou, para você era exatamente como se nada tivesse acontecido. exatamente como antes, eu era sua cotovia, sua boneca, que no futuro você poderia tratar com o dobro de carinho, porque eu era tão indefesa, tão frágil. (levantando-se) torvald, foi naquele momento que veio como um relâmpago à minha cabeça a idéia de que eu tinha vivido oito anos com um desconhecido, tinha dado a ele três filhos. não aguento nem pensar. dá vontade de me arrebentar em mil pedaços.
helmer (triste)
estou vendo, estou vendo. abriu-se um abismo entre nós dois, é inegável. mas, nora, não seria transponível?
nora
como eu sou agora, eu não sou mulher para você.
helmer
eu sou capaz de mudar.
nora
talvez, se levarem embora sua boneca.
(…)
helmer
mas, algum dia, nora, algum dia?
nora
como é que eu posso saber? não tenho idéia do que vai acontecer comigo.
(…)
helmer
nora, eu nunca vou passar de um desconhecido para você?
nora (pensando)
ah, torvald, o maior milagre de todos teria que acontecer.
helmer
diga o que seria isso!
nora
nós dois, você e eu, teríamos que nos modificar a ponto de… ah, torvald, eu não acredito mais em milagres.
(…)